Entrevista
1 - Você pode se apresentar falando sobre sua arte, suas realizações, colaboradores e como se apresenta a cena de cinema independente na região em que você vive.
Fabiano: Eu sou Fabiano Soares, sou um escritor que acabou se envolvendo com o cinema por caminhos tortuosos — e acabei me apaixonando por realizar filmes de maneira completamente independente e com parcos recursos. Sempre que consigo, envolvo alguns amigos que topam as furadas, e desde 2017 ganhei um parceiro de vida que está, hoje, codirigindo comigo: o Edgar (meu filho). O Edgar começou como figurante no “O Mito do Silva” (2018), dirigiu o “Pazukids — Edgar em busca de Carlos na Ilha do Desarrego” (2024), e agora em 2025 veio o convite para ele codirigir comigo uma história para o “Tropical SOV”. Felizmente temos as mesmas referências, um trabalho que venho desenvolvendo com ele desde que ele era bebê, o que torna fácil nossa conversa preparando storyboard ou mesmo no set, quando ele propõe muitas ideias enquanto estão rolando as gravações.
Além de fazer filmes e videoclipes como roteirista ou diretor, também topo assumir outras funções em filmes de amigos, como no longa-metragem “Amado Pai” (2024), do Leo Miguel, quando fui assistente de direção, ou editor do documentário “Tear” (2015), da Tai Linhares. Assim como busco ajuda para realizar minhas ideias, tento ajudar o pessoal que faz filmes na garra.
2 - Conte-nos como foram as filmagens de seu segmento para o “Tropical SOV”.
Fabiano: Como o Edgar está na escola, e eu estava terminando o mestrado, o horário que tínhamos para discutir sobre o “Natureza Morta” era pouco, mas conseguimos fechar a história em um dia. Edgar veio com a referência de fazer um personagem caracterizado como Mr. Bean, já que é atualmente uma série que ele assiste e gosta muito. Como isso aumentava o tom nonsense da história, topei, e achei demais o modo como ele se desenvolveu bem fingindo estar cansado ao carregar uma maletinha vazia. Muitos filmes que assistimos juntos, comentamos sobre como as cenas foram gravadas, o que foi necessário fingir, então Edgar está escolarizado sobre o que é preciso falsear para parecer real no cinema. Ele escolheu posições de câmera e movimentações, como a de ele passar pela câmera e ficar de costas na caminhada, ou colocar a câmera como se estivesse dentro da maleta ao retirar o corpo. Foi a primeira vez que tive a certeza que ele está compreendendo a magia de fazer cinema (e o melhor, do cinema independente, do perrengue).
Edgar: Eu gostei muito de gastar um feriado fazendo um filme. Descansei em paz, né? (Risos).
Fabiano: Em um dia, gravamos todas as cenas, mas tivemos a preparação do boneco, com a pintura do isopor e a criação do rosto do boneco morto, o que foi feito pelo Edgar. O enchimento do boneco foi feito por mim e pela Luciana, minha parceira de vida também, e fizemos enquanto o Edgar estava na escola. Foi bem interessante. Tivemos a ajuda de duas pessoas que se disponibilizaram a ir na gravação, a Andréa Aguiar e o Juan Carlos. O Juan, antes de ajudar no dia, já tinha se comprometido a auxiliar financeiramente com uma cota de produção o filme. A cena independente ainda tem uns malucos gente boa que topam dar dinheiro pra gente se divertir fazendo filme — e espero que isso nunca morra!
3 - Teve algum imprevisto durante as filmagens que você gostaria de nos contar (com todos os detalhes sórdidos, por favor).
Fabiano: O básico da produção: evitar crianças, animais e água. Decidi gravar em uma sexta-feira com previsão de chuva, com uma criança como ator principal, e dependendo da ação de urubus selvagens. Enfim, tudo para dar errado, mas rolou. Edgar ficou cansado, mas cumpriu tudo direitinho. A água não rolou, felizmente, e até estava um sol absurdo para a roupa que o Edgar escolheu (terno estilo Mr. Bean), o que nos obrigou a criar planos para ir tirando a roupa aos poucos. Já os urubus, foi foda.
É interessante dizer que por conta da escola do Edgar todos os dias, tivemos que optar por gravar fim de semana ou feriado. Tivemos fins de semana com chuva, e com o prazo já apertado, teve um feriado lindo para gravar o curta: sexta-feira santa. O dia que o pessoal cristão não come carne, fica de luto pela morte do nazareno, né? Então, nesse dia colocamos um boneco recheado de miúdos bovinos numa praça com urubus (que ficam nessa praça porque estão acostumados e pegar as carnes de despachos de macumba que fazem ali; praça de São Jorge), e deixamos eles brigarem pelas carnes. Foi bonito. Mas embora tenhamos gasto uma quantia considerável com fígado, tripa e carne moída, os urubus se recusavam a subir no boneco para pegar a carne. A gravação, que deveria terminar pelas 13 horas, continuou até quase 17, quando a Luciana teve a ideia de tirar o pote com carnes de dentro da barriga do boneco e colocar na lateral, alterando um pouco um plano, mas fazendo funcionar pelo menos — teve briga dos urubus pelos pedaços de carne que ficaram se esturricando no sol, com as moscas colocando suas larvas durante a tarde toda. E eu ficava reclamando, parodiando o Zé do Caixão: “Hoje esses urubus comem carne, nem que seja carne de gente!” Mas é isso, pelo menos foi possível finalizar o curta!
4 - Paralelo as tuas produções você também é escritor – premiado, inclusive. Gostaria que tu falasse um pouco sobre sua carreira de escritor e, também, comentasse sobre alguns filmes que tu escreveu o roteiro primeiro e depois os transformou em contos publicados no “Rio Nosso de Cada Dia”.
Fabiano: Bom, eu sempre digo que eu sou um escritor que gosta de ver suas histórias em vídeo — e como ninguém se dispõe a gravá-las, virei o cara que transforma as histórias em vídeos. Ou seja, dirijo minhas histórias porque quero vê-las na tela! Por exemplo, o MoFo, artista de quadrinhos vagabundos, fez algumas parcerias comigo, então eu me contento a só escrever o roteiro e deixar o artista rabiscar — e fizemos algumas adaptações bacanas em HQ, curtinhas.
Por conta dessa minha base, que é a produção literária, eu tenho muitos textos guardados, esperando publicação ou adaptação. Mas de 2010 para cá, depois de eu ter sentido o gostinho de fazer o primeiro filme (“O Dia do Folclore”, 2009), passei a ter umas histórias que surgem primeiro como roteiro. Foi o caso de “O Terno do Zé”, que nasceu como roteiro do curta de ficção que dirigi em 2012; e também de “Reciclagem”, roteiro que escrevi em 2014, e que chegou a ter equipe e elenco para gravar, mas a área das locações entrou em guerra de facções, e até hoje está um lugar impossível de gravar. Essas duas histórias foram adaptadas, em 2021, para fazer parte do meu primeiro livro solo, “Rio Nosso de Cada Dia” (2022, editado pelo Petter Baiestorf). A adaptação de um roteiro para a literatura é mais trabalhosa do que o inverso, na minha opinião, já que um roteiro que você mesmo vai dirigir, basta que você consiga passar aos atores e equipe suas intenções, e se houver alguma dúvida, você tira no set. Adaptar um roteiro para um livro, você não estará ao lado do leitor para dirigir a leitura, precisa um trabalho rebuscado para atingir a linguagem que você quer, passar sua intenção utilizando apenas a capacidade de leitura do seu público. Mas acho interessante esses trabalhos de adaptação de uma linguagem para outra, do cinema para a literatura, da literatura para o cinema ou para os quadrinhos. Exercitam a mente e nos fazem tentar espalhar nossas ideias para todo tipo de público.
Sobre o início de minha carreira como escritor, posso marcar dois eventos que ocorreram paralela e simultaneamente: em 2017 entrei para o coletivo Maldohorror, a convite do Petter, que lembrou de 2012, quando em uma oficina de cinema independente, eu enviei um conto do blog que eu mantinha apenas para guardar textos para mim mesmo, sem mostrá-los para as pessoas. Petter lembrou que eu escrevia, e convidou para fazer parte do coletivo, o que aceitei meio receoso; felizmente, fiz amigos e pude conversar sobre literatura maldita com pessoas que sacavam muito, e me deram dicas valiosas. E logo em seguida, houve a fundação da ABERST, Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, onde pude trocar ideias com escritores mais experientes e que estavam nessa vida de publicação há tempos. Aí tive uma ideia de mercado editorial, fiz cursos de ferramentas que muito me acrescentaram na vida literária. E percebi que literatura você consegue fazer sozinho (ou quase); cinema, não.
5 - Nosso projeto “Tropical SOV” celebra o Shot On Video, que sempre foi uma expressão cinematográfica marginal à produção de cinema oficial e inspirado na filosofia do “Faça Você Mesmo”. Que conselho você gostaria de dar (ou qualquer tipo de ponderação) sobre essa arte tão difícil, mas divertida, de se produzir de maneira independente?
Fabiano: Acho que, por mais que existam perrengues ao se fazer um filme sem dinheiro, a diversão é sempre maior. Basta você escolher a equipe e o elenco que não vão te decepcionar. O amor ao cinema independente, ao SOV, faz qualquer incerteza de dar merda ser pequena demais se comparada à animação de fazer um filme — sim, fazer um filme, sem dinheiro, gastando o que vai fazer falta, mas que vai dar um orgulho danado quando vierem falar sobre o que vocês fizeram. Façam filmes, mesmo sem saber. E saibam: o processo de aprender fazendo pode não ser o mais eficaz para te transformar em um diretor fodão — mas certamente é o caminho mais divertido!
Making Of
Ficha técnica
Direção e Roteiro: Edgar Soares e Fabiano Soares
Produção Executiva: Fabiano Soares e Juan Carlos
Fotografia e Edição: Fabiano Soares
Colorização: Leonardo Miranda
Produção: Luciana Kani
Ass. De Produção: Juan Carlos e Andréa Aguiar
Design boneco: Edgar Soares (rosto), Fabiano Soares e Luciana Kani
Arte e Maquiagem: Fabiano Soares e Luciana Kani
Trilha Sonora: Petter Baiestorf, Juan Carlos, Edgrind (bateria) e Pato Epiléptico (baixo)
Elenco:
Edgar Soares, Agosto (boneco) e urubus
Filmado com uma Canon 6D (para 80% das cenas), uma Samsung PL120 (cyber-shot, para making of e a cena dos urubus) e uma Canon SL3 4K (pra cena dos urubus)
Filmografia
Fabiano Soares:
O Dia do Folclore (Brasil, 2009, 17’)
Boneco de Pano (Brasil, 2009, 3’)
Solidariedades (Brasil, 2011, 11’) – Roteirista dos 5 episódios e dirigiu 4.
O Terno do Zé (Brasil, 2012, 22’)
Perdigotos da Discórdia (Brasil, 2012, 12’) – Roteirista e Diretor do Episódio “A Mãe e o Pintinho”.
Eu Aceito (Brasil, 2014, 4’)
Churrasco Misto (Brasil, 2014, 1’)
Par ou Ímpar (Brasil, 2015, 5’)
Vegetal (Brasil, 2015, 15’) – Codiretor
Eleven Years videoclipe de Incognosci (Brasil, 2015, 3’)
O Olho Maligno (Brasil, 2015, 3’)
A Revolta do Boêmio videoclipe de Uzômi (Brasil, 2016, 2’)
Jigoku videoclipe de Horrificia (Brasil, 2016, 2’)
Sacrifício (Brasil, 2016, 3’)
Paterno (Brasil, 2016, 12’) – Codiretor
Terno do Zé videoclipe de Gangrena Gasosa (Brasil, 2017, 3’) – Codiretor
O Mito do Silva (Brasil, 2019, 10’)
Potinho de Anhanha videoclipe de Edgrind (Brasil, 2020, 1’)
O Rei do Cemitério videoclipe de Gangrena Gasosa (Brasil, 2022, 4’)
Canibal Filmes – 30 anos de deboche, nudez e anarquia no cinema independente (Brasil, 2025, 30’)
Edgar Soares:
Pazukids — Edgar à Procura de Carlos na ilha do desarrego (Brasil, 2024 20’)













